segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Interlagos, passado e futuro

Não, a foto acima não é de Interlagos. Mas bem que poderia ser, de acordo com Joe Saward. Trata-se de Roosevelt Raceway, circuito que abrigou uma tentativa de retomada da prestigiosa copa Vanderbilt em 1936 e 1937.

Semana passada, o jornalista inglês trouxe à luz algumas linhas sobre o autódromo paulistano em seu blog. Ao falar da falta de infraestrutura, e apesar de dar um tom forçadamente pejorativo, ele recupera alguns dados históricos interessantes. A seguir:

É preciso lembrar que Interlagos tem funcionado desde 1939 e que sua existência como circuito seu deu pelo fato de que a instável encosta em que foi construído era inviável para erguer casas, na época em que empreiteiros chegaram ao local. Em vez de perder tempo no desenho do traçado, eles simplesmente copiaram as ideias usadas para o Roosevelt Field, em Long Island, próximo a Nova York, e as adaptaram para a terra disponível. O autódromo tem sido reformado desde os anos 70, mas o espírito permanece bastante parecido. O lugar foi engolido pela cidade ao fim daquela década, quando apareceram as favelas do entorno, mas a área melhorou bastante nos últimos 15 anos, embora a região ainda seja problemática, como o pessoal da Fórmula 1 descobriu com inúmeros assaltos em anos recentes - apesar de não ter havido problema neste ano.

Juízos de valor à parte, o paralelo entre Roosevelt Field e Interlagos é bastante revelador. Assim, como sua versão brasileira, o circuito americano também foi construído próximo a uma grande metrópole: era natural que os construtores de São Paulo se inspirassem num empreendimento com uma estratégia comercial semelhante.

A questão do traçado é um pouco mais polêmica, visto que não havia, exatamente, uma razão planejadora na hora de se desenhar circuitos. Áreas de escape, retas suficientemente longas e periculosidade de trechos eram particularidades sequer postas em questão - no máximo, esperava-se alocar o público em qualquer ponto onde um carro desgovernado não pudesse atingi-lo.

Feita a ressalva, é até possível enxergar semelhanças entre Interlagos e Roosevelt Field, ao menos na primeira versão desta, erguida em 1936 (ano em que a foto acima foi tirada): anti-horárias, com uma longa reta e trechos sinuosss, com a faixa de asfalto serpenteando ao máximo o espaço disponível.

Aí parece terminar a inspiração. Roosevelt foi feita em um terreno plano (perto de um aeroporto homônimo), arquibancadas de concreto e largura de pista mais do que razoável. E sua expansão é radial, ao contrário do esquema infield-outfield do traçado original de Interlagos.


Saward não cita, mas não custa lembrar que Interlagos teve seu traçado modificado em 1990, adaptando-se a padrões de segurança atuais e com instalações de box compatíveis às exigências da época.

Ele também não fala que Roosevelt Raceway não manteve os princípios que Interlagos importou por muito tempo. Considerado travado e esburacado demais para as poderosas máquinas europeias que vieram disputar os prêmios em dinheiro de Vanderbilt em 36, modificações profundas se deram no ano seguinte - quando Interlagos não havia sido sequer inaugurado.

De 6,4 km, a ditância da volta caiu para 5,6 km. A versão de 1937 tinha duas retas paralelas próximas ligadas por duas seções de curvas largas em cada uma das extremidades. Incrivelmente, se parece muito com uma outra pista, construída num terreno pantanoso, onde não seria possível levantar casas, em uma região recém-descoberta pela especulação imobiliária, no Rio de Janeiro. Mais de 30 anos depois, Jacarepaguá seria inaugurada.

O autódromo de Long Island talvez tenha sido o último suspiro do automobilismo em traçados mistos nos EUA do pré-Guerra. A copa Vanderbilt não foi mais realizada após 37. Três anos depois, Roosevelt Field foi transformada numa pista de turfe, que gozou de grande sucesso nas décadas seguintes. Em declínio, parou de funcionar nos anos 80. Hoje, o terreno, somado ao do antigo aeroporto, comporta um shopping center.

O artigo de Saward prossegue, sobre Interlagos: fala da ameaça de um empreendimento que estaria sendo construído no Beto Carrero World. A região, que lota de brasileiros, uruguaios e argentinos no verão, ainda deixa o parque hoteleiro vazio em outras épocas, ao que um evento do porte da Fórmula 1 poderia ser interessante - e alargaria a clientela para além do Cone Sul. Não houve repercusão na mídia brasileira, ao que o jornalista talvez possa ter engolido sem senso crítico um release otimista demais. A ver.

PS: um número considerável de desenhos da pista difere levemente da imagem publicada acima, publicada aqui tão-somente como documento histórico. Uma representação mais exata de Roosevelt Raceway tal como era em 1936 pode ser vista aqui.

6 comentários:

André Candreva disse...

Amigo,

excelente matéria sobre Interlagos...

fica como reflexão para o futuro...

abs...

http://pordentrodosboxes.blogspot.com

Anônimo disse...

Todos as vezes em que vejo fotos do Roosevelt Raceway, encontro semelhanças maiores do seu traçado com o traçado dos circuitos do Estoril ou o de Barcelona (Montmeló).

um abraço,
Renato Breder

fernando disse...

ótimo esse post, Daniel.

eu tinha lido o do Saward e ficado curioso sobre a possível semelhança entre o Roosevelt Speedway e Interlagos, mas não a ponto de ir pesquisar.
e que bom que você deixa claro que há um tom pejorativo no que ele escreveu (embora ele inicie dizendo que a F1 ama ir a Interlagos. mas é só.)
sobre a mudança do GP para SC, quem acertou na mosca foi alguém que lá comentou que o jornalista inglês quer mais é uma corrida que o permita ir à praia depois do evento.

vendo a imagem do traçado do Roosevelt de cara pensei em Jacarépaguá - o que então tem também a ver com a impressão do Renato Breder, de semelhança com o Estoril.
isso porque o do Estoril, o de Jacarépaguá, assim como o de Pinhais-Curitiba e o finado autódromo de Luanda (Angola), todos foram projetados pelo arquiteto paranaense Ayrton Cornelsen - há um site sobre ele na web, com uma página dedicada aos autódromos, mas localizável sob o nome Lolo Cornelsen (como ele é mais conhecido).
resta saber se Cornelsen utlizou aquele traçado do Roosevelt como referência para seus projetos.

abs
fernando amaral

Humberto Corradi disse...

Foi palco da Vanderbilt Cup. Mais um excelente post.

Valeu

Anônimo disse...

A pista Roosevelt Field me lembrou um pouco a de Jacarepaguá.

carlo paolucci disse...

Master Daniel,

ñ basta ser fã do blog, tem q cobrar, eh eh. Belgicanos já aprenderam a curtir teu site, mas ficamos enciumados c a reportagem dos franceses. Cadê nóis-na fita? (típica expressão brazuca).
Saudações belgo-monarquistas.
carlo paolucci (em terras brazucas)