quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Prost em primeira pessoa

Foi ao ar no Brasil, pelo canal Sportv, o documentário "Alain Prost" (2011), feito para a tv francesa. A direção de Tristan Séguéla acompanha o piloto em uma série de entrevistas, sem intervenções em off. Apesar de pouco material de arquivo e algumas fotos no melhor estilo powerpoit - algumas delas completamente fora de contexto -, o programa joga luz em uma das biografias mais desconhecidas do automobilismo recente.

Um perfil assim não deveria passar em branco. Por isso, compilei, por tópicos, o que de melhor é trazido à tona. Talvez odiado pela opinião pública brasileira, ingressar na humanidade do piloto é um bom exercício.

INFÂNCIA
Quando criança, Alain Prost gostava muito de esportes, principalmente de futebol. Em sua casa, o fã de esportes mecânicos, e de mecânica em geral, era seu irmão, Daniel. Ele marcaria a fundo as memórias mais antigas de Alain, já que, ainda adolescente, foi diagnosticado com tumor cerebral. A rotina da família passou a incluir convulsões e a piora do quadro até sua morte. Durante as entrevistas, Alain relaciona à memória de seu irmão os acidentes mais impactantes que presenciou enquanto piloto - de Regazzoni, Villeneuve e Pironi.

Foi quando deram de presente a Daniel uma corrida de kart que Alain se inscreveu, meio sem vontade, aos 14, para entrar na pista. E venceu.

INÍCIO DE CARREIRA
Ganhando ainda jovem os títulos de campeão francês e europeu de kart, Prost passava muito tempo nas garagens, montando e desmontando seu equipamento. Também ingressou em escolas de pilotagem e em categorias de base.

Enquanto disputava uma destas, chegou uma ordem de apresentação ao serviço militar. Tranquilo, compareceu. Para sua surpresa, foi recrutado.
Pensou ser o fim de sua carreira. Semanas depois, um superior perguntou quem do grupo sabia datilografar. Prost, que não sabia, por intuição, levantou a mão. Foi servir como secretário do capitão. Próximo às altas patentes, conseguia mais facilmente dispensas para disputar as provas. Por bem ou por mal: para disputar uma etapa do Volant Elf daquele ano, falsificou uma dispensa oficial.

CHEGADA À FÓRMULA 1
Campeão das Fórmulas 3 francesa e europeia, em 1979, a Brabham o convidou para disputar o GP do Canadá daquele ano, após a inesperada desistência de Niki Lauda. Prost disse não: em um circuito técnico e desconhecido que era Montréal, em um carro que jamais tinha pilotado, as chances de ser um fracasso eram imensas. Depois, ele se arrependeu - achou que jamais conseguiria um cockpit na Fórmula 1.

Estava errado: a McLaren o convidou para testes que definiriam seu futuro piloto, em Paul Ricard, onde ele andava de olhos fechados. Entrou no carro, deu algumas voltas e, ao sair, sabia que a vaga era sua.

Assim, estreou no GP da Argentina de 1980. Ele diz não se lembrar muito bem da largada. Seu objetivo primeiro era se classificar bem e, na corrida, se manter o máximo possível na pista, para ganhar experiência. Largou mal, e derrapou muito, como tantos outros, no asfalto sujo de Buenos Aires. Mas foi regular o bastante para chegar: em sexto, marcando seu primeiro ponto. Sua memória também prima pela falta de grandes lembranças de sua primeira vitória, já na Renault, no GP da França do ano seguinte.


RENÉ ARNOUX
Muito antes da rivalidade com Senna, era Arnoux o grande desafeto de Prost.

Ele conta sua versão de como a briga entre ambos começou.
Em Paul Ricard, em 82, a equipe decidira planejar o restante da temporada privilegiando Prost, muito à frente do conterrâneo no campeonato. A tática para o GP da França seria dar o melhor motor a Arnoux, para que ele agisse como "coelho": desgastando os concorrentes e, caso Prost estivesse atrás, dando a posição ao companheiro no final. E assim aconteceu, mas Arnoux, em primeiro, no seu próprio país, não cedeu. Foi o primeiro colocado.

Prost, irritado, deu entrevista à tv logo após sair do pódio, dizendo-se chateado com Arnoux, por este ter ignorado o acordo de entrega da posição feito antes da prova, o que podia lhe custar o campeonato.

Saindo do autódromo, Prost parou para abastecer o carro. O frentista reconheceu o piloto de Fórmula 1 à sua frente e comentou a corrida: "Você é que está certo, esse negócio de trocar de posição é ridículo. O Prost é um idiota" - ele pensava estar falando com Arnoux. Envergonhado, Prost pagou a gasolina em dinheiro, escondendo seu cartão Elf, que comprovava sua identidade.


O PRIMEIRO TÍTULO
O episódio da entrevista talvez o tenha feito ver como a relação piloto-imprensa-público é delicada. Muito tempo depois, em 85, ele estava na mira dos franceses por ter quase vencido o campeonato ao menos três vezes. Achavam-no fadado a jamais levar o título. Quando foi finalmente campeão, atraiu muitos holofotes. Mas tentou manter sua vida familiar preservada. Prost conta que até mesmo pedia para os repórteres pegarem leve e não glorificarem demais suas conquistas.

Segundo ele, sua motivação não vinha de ser ou não campeão, mas de construir uma temporada sólida, com resultados constantes. Por isso, seu bi, em 86, segundo ele, foi mais emocionante que o primeiro - porque foi contra carros melhores.


SENNA
Ao fim do primeiro teste que fez com a McLaren de 88, Ron Dennis lhe perguntou o que havia achado. Respondeu que era o carro do título. Ron assumiu um semblante preocupado. Desde antes do início da temporada, sabia que controlar o ímpeto de Senna e Prost em sua equipe seria difícil.

No documentário, Prost diz pensar que Senna o via como o homem a ser batido e que, para o brasileiro, esse tipo de disputa se estendia para além do âmbito esportivo.

O francês atribui a culpa pela batida no GP do Japão de 89 a Ayrton, que, segundo ele, insistiu em uma manobra arriscada. E a lamenta, pois acredita que o teria vencido. Mas é quando fala da batida do ano seguinte que, pela única vez, as palavras lhe escapam. Sua vontade, afirma, era de encher o rival socos na própria caixa de brita.

Em 1993, já campeão e já com a aposentadoria devidamente comunicada, Senna venceu em Suzuka e ele foi o segundo. Só faltava mais uma prova, o GP da Austrália, e, por razões óbvias, sua vontade de bater Ayrton era imensa. Mas não conseguiu. No pódio, foi surpreendido: "Vamos lá, temos de dar o exemplo", disse o brasileiro, e o puxou para o lugar mais alto. Foi naquele momento, diz, que Ayrton mudou completamente.

O relacionamento deles, diz, passou a ser extremamente cordial. Em Imola, após almoçar no motorhome, a caminho dos boxes, Senna acenou de longe para Prost. O gesto fez com que todos em volta parassem imediatamente o que estavam fazendo. Trocaram algumas palavras, tão banais que ele nem se lembra do assunto. Pouco depois, foi o francês a ir aos boxes da Williams. Foi a primeira vez que ele viu Senna falar sobre medo da morte, a vontade de não correr. Foi um choque para Prost, que já havia dito a plenos pulmões, anos antes, que Ayrton se considerava indestrutível. Coversaram por cinco ou dez minutos. Foi a última vez que se viram.


PROST GRAND PRIX
"Foi um grande erro", ele define. Mas, distante como sempre, emenda: "Mas é normal, erros acontecem na vida".

Diz que ficou feliz quando soube que teria a chance de reeguer a Ligier. Diz que o primeiro erro foi a escolha o nome: devia ter se chamado Ecurie France, para que desse a ideia de um projeto nacional.


Um dia antes de assumir oficialmente a Ligier, teve um encontro com Jacques Chirac. Prost contou que pensava em abortar o projeto. O então presidente disse para ir em frente, que fizesse pela França, e que lhe daria apoio no futuro próximo. O apoio nunca veio.

Na véspera da assinatura com a Peugeot para a temporada de 98, o contrato havia mudado totalmente: haviam prometido motores gratuitos por cinco anos; receberiam três anos e teriam de pagar por eles.

HOBBIES
O documentário mostra o Alain Prost de hoje em dia como um esportista dedicado e um pai afetuoso. Ele acompanha a carreira de Nicolas, seu filho, também piloto, de longe. Vai a alguns treinos, quase nunca às corridas - elas o deixam nervoso.

Em seus primeiros anos de Fórmula 1, descobriu o golfe e jogava sempre que podia. No fim de 92, quando tirou um ano sabático, começou a correr de bicicleta para recuperar o condicionamento físico, e abandonou o golfe por completo. Hoje, pedala bastante e dá algumas tacadas, com os filhos, de vez em quando. Como nos tempos do kart, gosta de montar e desmontar a bicicleta, trocar componentes, acertar seu comportamento.

Dois meses por ano, costuma competir em corridas de carro na neve.

8 comentários:

Ron Groo disse...

Nunca tive simpatia por seu estilo.
E nem era pela briga com Senna, mas pela forma burocrática que guiava e ganhava...

Mas, deixa eu perguntar... É o maior ídolo da França no automobilismo? Incluindo carros e motos?

Daniel Médici disse...

Olha Ron, não posso afirmar com certeza, mas acho que o Prost não é muito reconhecido no próprio país. Mas não saberi responder qual é o piloto que a França mais gosta. Dos atuais, provavelmente, o Loëb. Acho eles muito reservado a respeito disso. Ponderados demais, não respondem com o 'coeur'.

Diego Wendhausen Passos disse...

Eu acompanhei a parte final do documentário, quando ele falou da mudança de comportamento do Senna, de insensível a uma pessoa mais preocupada, até uma frase interessante ele falou. "Antes podia explodir o mundo ao redor dele, que nada o afetava. O Senna que conheci foi um cara daqueles últimos meses, mais preocupado". Acompanho Fórmula 1 desde 1993, e os primeiros pilotos que não gostei foram o Alain Prost e o Riccardo Patrese. O francês por ser o principal adversário do Senna, enquanto o italiano por achá-lo pouco competitivo. Com o tempo, fui acompanhando aos documentários de Fórmula 1, das temporadas, e fui aprendendo a admirá-los e respeitá-los pelos currículo e história que tiveram na categoria.

A passagem da Prost também foi interessante, mas acho que ele se perdeu, e não conseguiu reencontrar o caminho, pois a equipe vinha muito bem até o acidente de Olivier Panis, no Canadá, na época 3º colocado entre os pilotos. O piloto teve poucas atuações de destaque, até sair da categoria em 2004.

No final, gostei da dedicação dele com as bicicletas, nem sabia que ele competia. Passou final de dezembro, na Sportv, no programa Esporte.Doc.

Hugo Becker disse...

Valeu a pena ler este texto até o fim e sem dúvida, procurarei este documentário.

A passagem sobre o irmão de Alain é tocante. E uma história dessas sem dúvida serve demais para fortalecer um homem dentro das batalhas da vida, por mais clichê que isso seja.

Prost nunca foi um piloto exuberante, mas dentro de suas características, foi, sim, um gênio. E é uma pena, uma grande pena, que rivalidades espetaculares como a dele com Senna sejam extremamente raras e dependam de N condições.

Quem viu, viu. Quem não viu, dificilmente verá algo semelhante.

Fábio Andrade disse...

Eu sabia que não deveria ter perdido esse documentário.

Enfim, parabéns pela iniciativa e obrigado, Daniel, já passei a saber de histórias que eu não conhecia.

Marcelo Betioli disse...

Ele foi um ótimo piloto. Muito burocrático para conseguir os objetivos.

Belo post.

Abraços.

André Candreva disse...

Daniel,

nunca fui fã do estilo do Prost mas o respeito pelos títulos que conquistou...

belo post...

abs...

Walter disse...

Assisto a F1 desde 1972. Vi pilotos velozes e pilotos burocráticos. Vi caras com pontos, vitorias, mas que não eram bons. Carlos Reutemann, gherard berger, alain prost.
Vi caras sem muitos resultados, que eram grandes pilotos, com Peterson e Villeneuve.
Prost dava dó. Imagine você ser francês, ver o Prost bater no Senna (a camera da FujiTv mostra que Prost vira à direita antes mesmo da curva, em Suzuka-1989). Os dois carros param. Prost sai do carro, desiste de lutar, depois de ter dado um golpe baixo. Senna continua no carro, agita as mãos, religa o carro, com o bico quebrado, volta para os boxes. Troca o bico, volta para a pista, alcança o Nanini e vence.
Prost foi derrotado na pista por si mesmo. Senna foi derrotado no tapetão por Balestre, não por Prost.
Lembro essa história porque Prost, mesmo sendo um tetra - campeão, não tem um "palmarés" de herói. É um homem de sucesso, nada mais.